Manuel Miragaia

NATUREZA

Vendo-te, sou como uma criança fascinada
que entra numa grande e antiga biblioteca
e que não a entende por inteiro,
mas percebe que nas suas prateleiras
e na disposição desconhecida de tantos livros
há uma sabedoria, uma ordem e uma harmonia.

És uma grandiosa e alegre catedral.
Nada tens a ver com uma capela fúnebre.
Em ti não há missais sagrados que ler,
só paisagens nevadas de montanha,
aldeias de xisto circundadas de carvalheiras,
penhascos da beira-mar batidos pelas vagas,
locais maravilhosos carregados de mística,
que quando os contemplo me comovem
e despertam em mim a alegria e o amor.

Aproximo-me com humildade e reverência,
e com a intenção de te poder venerar.
Responsabilizo-me de cada uma das tuas coisas,
até das que são minúsculas,
pedras, plantas, insetos, animais e pessoas,
acabam sendo como filhas minhas.

Em cada uma delas vive a alma universal.
O todo mora à vez em todas.
Não farei com elas o que não quero para mim.

Sinto contigo que o Eros nunca é mau.
Acho-me feliz na tua presença.
Consistes no pensamento e à vez na extensão.
És a infinitude do espírito e dos processos.
Crias, produzes e reproduzes.
És o mais perfeito modelo das ideias e formas
para que os artistas te imitem,

Encontro-me bem e em paz contigo.
Percebo que participo de ti,
que toda a minha natureza está dentro de ti.
Experimento-me redimido na tua união,
vivendo o clímax do sentimento oceânico.
Entrando na tua contiguidade
ultrapasso o dualismo do corpo e a alma,
e o do homem e o Universo,
autotranscendo,
e descubro o meu sentido,
achando-me com a fonte inesgotável da vida.

(Um poema do livro “O Sentido do Infinito”, de Manuel Miragaia, publicado na Editora Urutau no 2019)

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